sábado, 1 de maio de 2010

Pessoa - O Eu múltiplo


Lembro que o primeiro poeta que me dispus a ler foi Fernando Pessoa. E isso marcou-me consideravelmente. Sentia-me impelido às suas paginas, aos seus poemas, aos seus dramas, mesmo verbais. A multiplidade de “eus” pessoanos me instiga sempre. Talvez por saber que nenhum homem é uno, único, heterogêneo em si mesmo. O que chamamos de “eu” é, na verdade, um mosaico de sensações, de experiências, de dramas, de acasos...um ensaio permanente...Fernando Pessoa foi o mais fingidor dos poetas e, por isso mesmo, tão autêntico. Sua Autopsicografia é toda uma litaratura. Aliás, Fernando Pessoa é uma literatura toda. Não obstante a dor fíctia, o “eu” fíctio, o drama fíctio, a poesia pessoana é das mais sinceras em matéria de existência e sensação. Uma vida inteira dedicada à experiência poética. Pessoa me torna múltiplo, significativamente outro. Todavia sempre um outro em mim. Muitas vezes, só me sinto pessoa no Pessoa. Este Pessoa em minha pessoa me custa o mistério das coisas. O mundo tem fatalmente um drama múltiplo. Um drama que eu – múltiplo – me findo em variações de mim e de minhas perspectivas. Sou portanto um acaso...mas um acaso múltiplo, cheio de fatalismos...mas fatalismos múltiplos, devir intenso de mudança...

segunda-feira, 26 de abril de 2010

A Palavra como Silêncio


Há uma dimensão sagrada na palavra: ela supõe o silêncio. Escrever é buscar a voz alguma da escrita, o que jamais pode ser dito, e o dito torna-se sempre o intraduzível. Todo poema fracassa. Todo conto incidi uma derrota, a lástima da língua é o romance. Para que serve a Literatura? Para promover silêncios. Para fundamentar o não-dito. Não há outra função originária para o escritor: ele frustra a língua. Assim, nenhum escritor tem voz. Talvez o que possamos supor como berro, grito, rufo da voz seja, em verdade, tímido ruído de algum verbo. Todo escritor é abstrato. E não seria exagero supor que sua existência é a ficção de algum verbo, de alguma palavra, de alguma língua que, por sua vez, também é ficcional. Silenciar a língua, o corpo, as nódoas da carne e da alma. Silenciar o orvalho, o acrobatismo dos bêbados, as desilusões da infância. Silenciar a rua, a brisa, a bruma, as suposições, todas as fomes. Silenciar também as formas. Todas as estéticas. Silenciar o silêncio. Toda palavra é túmulo. Todo escritor é lápide.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Poe(MITO) II

Mais do que a morte
É preciso a vida
De existir em morrer

Poe(MITO) I

Há em todo homem
Uma dupla solidão:



a de existir
– vida nunca concebida


a de morrer
– vida nunca conseguida

terça-feira, 6 de abril de 2010

Clichê-reverso I I

A alma não vale a carne, a carne não tem eternidade, a carne tem intensidade...

Clichê-reverso I

É preciso, muitas vezes, um certo desconhecimento de si mesmo para suportar o peso de sermos o que somos...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Idílio para M.B.

Qual poema eu te escreverei
Por entre os mitos do amor e as palavras do ocaso?
Por onde encontrá-la entre ramos de absinto
E relvas imemoriais?
Longe do peso das coisas e das mágoas
Convive
A colher rebanhos
E pássaros já são morada em teus ombros
E tua sombra é sempre a hora que me resguarda
E de teu ventre fecundam madrigais
E de teus olhos belos idílios...